janeiro 31, 2014

Traços

Coleccionei o rosto abotoado e sombrio da chuva que humedecia a rua, a minha ida à tabacaria com o casacão russo da minha mãe e a bóina branca na cabeça. Na sacola o rolo de fio, e os jornais dobrados, e o bolo de canela desta vez perfeito no forno.
Sou a condessa russa hoje. Uso sorriso e batom vermelho. Lancho maçãs, leio livros e amo.te.

Sou feliz.

O sorriso dela, a cegueira dele


janeiro 29, 2014

Apelo ao vosso voto

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Uma fotografia. Uma descrição. Um mundo.


Acordei várias vezes e passei mal a noite com o rosto dos Somalis colado à minha testa. Detesto rever as más emoções das peliculas durante o sono. Desta vez, o grito desesperado do capitão que só dizia "Amo-te Andrea" não me saía da cabeça.
Prometi pesquisar sobre toda a espécie igual a Muse e perceber porque, à semelhança da opinião de Philips, eles não eram meros pescadores.
Eu também não era apenas uma miúda. Tinha nome. Tinha rosto. Tinha corpo.
Tinha que fazer alguma coisa para parar a tempestade.


janeiro 28, 2014

Acabámos por não ir à Serra de Sintra. Eu estava desejosa de uma aventura. O meu corpo precisava urgentemente de uma saída, ainda que com os cortinados de chuva que encobriam a cidade.
A decisão não era minha, era deles.
E instantes depois dessa observação reparei nos fios que rasgavam essas cortinas molhadas, e na tarde perfeita que virou.
O que interessa o tempo quando o corpo quer sair para fora?




janeiro 27, 2014

Velha e louca

Ouvi a Malu a cantar na televisão. Revi o passeio de Montes Claros, e planeei a manhã preguiçosa do dia seguinte. Tinha a fotografia do Arco da Rua Augusta com a glória coroando o génio e o valor, e apeteceu-me ser verde.
Quantas vezes já tinha aberto a caixa do correio na esperança de mais outro postal de Paul Theroux decidindo se beberia já a seguir.
Eram estes os meus pensamentos. Perturbados ou não, faziam sentido. É que a tarde mergulhada naquela epopeia florestal a querer abraçar o Tejo fez.me desejar as coisas  ainda com mais rapidez que o costume.
Andava a aprender a tolerância desde 2004.


janeiro 25, 2014

Unforgettable - Nat King Cole

Passei de carro com o meu pai. Antes de sair por aí fora pela Avenida da Liberdade, avistei o Aviz de Lisboa. Tentei lembrar-me das curvas da estrutura que tinha muitos mais anos que eu, e que tinha servido de casa a Amália Rodrigues, Calouste Gulbenkian, Josephine Baker e tantos outros. Por mais esforços, foi em vão. Sorvi apenas a luz fervida do sol sobre a sua entrada com as cinco estrelas douradas.
Já mais tarde, as palmeiras com pontas amendoadas do sol lembraram-me um sítio paradisíaco, o qual não sei o nome. O alcatrão alaranjado que nos conduzia até à praia era inesquecível. Não sei que mais querer da vida, senão andar de carro com o meu pai.
Ter Nat King Cole no rádio do carro, e a ameaça de Inverno impedida pelo sol na estrada de Carcavelos.
Lisboa pode não ser a cidade mais bonita do mundo. Não visitei o mundo todo para fazer comparações. Mas é diferente. Tem uma espécie de qualquer coisa que não consigo esquecer.

Inesquecível.


janeiro 24, 2014

ao regressar de Montes Claros

Quando me deram a notícia de que a loja de Camilo havia sido vendida, um misto de acidez e temperatura formou-se na minha garganta. Eu que tinha praguejado acerca dos preços altíssimos das camisas brancas e impecáveis do Camilo, agora assumia a derrota do velho, e imaginava o futuro pobre sob o poder dos chineses.
A realidade nem sempre podia ser agradável.


janeiro 22, 2014


Apetecia-lhe andar de carro. Apenas continuar. Numa visão chuvosa de um carro azul e anos sessenta.
A rapariga tinha desejos de vidros encharcados em chuva, e em céu cinzento. O conforto de ser conduzida. Queria a estrada que levava ao mar.


Vive-se de pequenos objectivos. De obsessões. Só queria que a escritora italiana lhe enviasse o email prometido há dias atrás. A esperança de saber mais um segredo. De roubar mais uma história para colocar dentro da caixa, e fermentar. Guardar corações alheios. Só queria o relato estrangeiro, para que depois se sentisse mais próxima dos ídolos. A escrita era o maior anjo na terra que conhecia.

janeiro 21, 2014

Há uns dias tive um sonho. Já não era criança. Tenho a certeza que carregava o peso da idade nos ombros, mas o da cidade estava espalhado nos outros, que não tinham sorriso. Nos sonhos em que as irmãs entram, as de sangue, há uma Lua que nunca é cosmopolita. O céu é sempre solidário com as estrelas. Creio que este sonho apareceu num livro escrito por duas irmãs francesas, mas é meu.
Nessa noite que podia ser noite de canções, porque as árvores se agitavam apenas pela respiração leve do vento, nós estávamos estacionadas em vários pontos da propriedade. Eu talvez sonhava com um texto. Sim, isso, um texto com palavras. As outras andavam algures pela terra batida, e dentro de alguma divisão da casa segurando um copo de vinho, saboreando os últimos eventos.
Algo troçou do nosso destino, depois daquele embuste. Acho que nos perdemos um dos outros, porque apesar de não sofrer nenhuma pancada na cabeça, vi fogo e uma expressão de desespero no rosto de uma delas. Chorei porque calculei que a vida delas se pudesse perder, com a mesma intensidade de alguém que ama alguém com os ossos, com a carne que tem.

Depois começou realmente a canção. Já os teus dedos percorriam a minha testa suada, e percebi que era um sonho. Continuava a não ser criança. Já não regressava à posição de resgate. Estavas ali.

janeiro 20, 2014

Coisas que alcançam o estado de compensação:

O brilho fragilizado da lua.
O sorriso do homem.
A deliquência.
Chá, a ferver, a formar rolhas de fumo pelos átomos do ar do quarto.
Cartas verdadeiras.
Um osso proeminente de uma mulher.
Um beijo de alguém, doce e quente.
A cama.
A reflexão à noite.
A mensagem inesperada.
Um trago de vinho.
Uma aventura literária.
Mais cartas verdadeiras.
Conferências a dois.

Tu, eu, o mundo.


janeiro 19, 2014

Chaga

Fazes parte da minha praia.



O medo. É disso que precisamos. O medo. A boca gigante, fria, cheia de feridas, que é o medo.
Já experimentaste?


janeiro 18, 2014

Perguntei-me se conseguia viver fora do verso, e da frase da prosa tão distinta, e percebi que não havia muitas hipóteses exteriores a esse globo quente cultural.
A vida era mais entusiástica com palavras, e harmonias. A vida era mais excitante quando próximos do toque das coisas.
Se eu não te conseguisse beijar, passaria a vida na miséria, a imaginar-te no leito da minha cama, mas sem formas e sensação.
Se eu entrasse pela porta de casa e o vazio fosse mais desesperado, e o silêncio rugisse mais alto aí não existiriam beijos.
Posso viver sem eles por dias ou momentos. Mas uma vida inteira sem o teu corpo, é anular as vibrações quentes do sol das palavras entre tu e eu.

Quando vais ser sincero comigo da mesma forma?


janeiro 17, 2014

Portishead - Glory Box

Achei que tomar banho era um acto egoísta. Que avaliar as minhas formas sob a água escaldante da banheira era estranho. Desenvolver esse acto enquanto chove lá fora. A pele é tão branca, tão simples. O sinal quase a chegar aos seios e os cabelos mais compridos desde a última vez a que me tinha dado a esta circunspecção.
O meu corpo é de mulher.

The Letter by Elena Shumilova


Sim, também acordei com a tempestade.
Parecia um gigante lá fora.

janeiro 16, 2014

A sala de uma das irmãs tinha espelhos redondos numa das paredes. Círculos tão perfeitos de cacos coloridos vindos da África do Sul. Lá conservavam-se todas as cores, todos os sentimentos.
Quando cheguei a casa e olhei para o vazio branco do meu quarto, tinha apenas 2 fotografias ocasionais de um girassol e de um monumento português, e o retrato de Erika centrado para que não me esquecesse da sua história.
Mesmo com a voz de Armstrong a rosnar no rádio antigo não consegui abstrair-me do pensamento contido nesses espelhos, e da vontade estúpida de conhecer a tua voz.
Não me perguntes porquê, mas hoje chegava-me para adormecer.


Há pessoas que me dizem que tenho de te resolver dentro de mim. Matar-te na minha matéria.
E a minha pergunta é sempre a mesma. A dúvida : porquê?


janeiro 15, 2014

A minha mãe estava comigo na sala de espera do consultório. A clínica das histórias que viram perfeitas de tão comuns. Cortinados baços, cor estranha. Janelas com vidros pouco limpos. Doentes. O chão recentemente pintado de verde. Um quadrado insuportável que nos separava dos restantes pacientes. E um silêncio, que era apenas quebrado com a saudação de uma outra vigilante que trabalhava ali. Os ambientes mais decadentes servem sempre as melhores histórias. Esta fez-me perceber que a minha mãe é mais forte e divertida do que imaginara.


janeiro 14, 2014

Estive aqui toda a noite. Com a farinha a secar os dedos na tentativa de fazer o pão. Quando a noite reduz o tamanho das janelas é difícil fazer pão. Reformulo. As mãos esquecem-se de como se fazem as coisas.
Também me esqueci de amar durante as noites. Também me esqueci de evitar a mentira, e ignorei que podias ser a pessoa exacta para mim. Na medida certa. Na altura certa. Depois escapou-me.
O tempo fugiu. A imagem de ti foi roubada.


Folhas de basílico, é isso.
O planear de uma sobremesa. Viajei durante uns quilómetros nos ingredientes imaginando-os palavras com sabor.
Por vezes a vida é apenas uma receita.


janeiro 13, 2014

Tive uma conversa, não só comigo mesma, mas com a mulher. Depois de observar o saco de chá a bolsar pequenas gotas castanhas e claras sobre a caneca produzi uma conclusão sobre as coisas mais fácil do que imaginara.
A vida, depois daqueles livros lidos, e após todos os eventos, teria que ser levada menos a sério.
Ainda que com a mesma dificuldade incutida na existência, teria de haver um sorriso uma e outra vez, porque o riso de quem é mais velho e de quem deposita em nós grandes esperanças, é mais forte que a influência diabólica que a melancolia tem sobre a nossa vida.


janeiro 12, 2014

Descubro sempre novos rumos nas palavras, e nas formas.
Imagina o que desvendo quando olho para o teu corpo.


Às vezes desejamos que a pessoa que mais amamos não existisse.

janeiro 11, 2014

A lareira está acesa. Há algum sentimento de sedução entre o quadrado quente e o sofá onde estou sentada, com o vestido amarrotado depois do estudo.
A luz já desaparece lá fora de livre vontade. Só sei que a cabeça já preencheu todos os espaços, e agora já não há lugar para outras coisas. Ao menos desta forma não me magoo.


janeiro 10, 2014



"" Corpos bonitos desejando entregarem-se. Não percebes que está na hora?""

janeiro 09, 2014

Gostava de escrever na Granta e na Egoísta.
Hoje olhei para as minhas pernas com o peso do dia em cima. Não que desejasse que ele já me tivesse roubado alguma coisa. Aquilo que muitas mulheres sonham em perder. Mas tive a certeza de que sou mulher. Não mais nem menos, mas mulher. A que caminha consolada da estação com a gabardine definindo-lhe as formas finalmente conquistadas, e de sorriso leve no rosto.


janeiro 08, 2014

janeiro 07, 2014

Nunca te contei mas já sonhei que dormíamos na mesma cama. Porque é mais forte.

Santiago do Chile, 1971

O retrato que encontrei dentro do envelope da carta revelava o rosto de uma mulher apoiando o braço numa árvore da praça. O rosto meio envergonhado de aparecer na fotografia à frente da banda que marchava nesse ano de 1971. Imaginei-a com sentimentos controversos a tentar perceber o que se passava no país nesse dia.
Hoje também sou ela, com o coração meio doente por ti. A noite passada sonhei contigo sem querer. Pensava já ter-te expulsado dos territórios do meu pensamento, mas nunca quiseste estabelecer fronteiras pois não?
Para ti é sempre dia Nacional como naquela fotografia.

janeiro 06, 2014

O teu sorriso cabia numa moldura.
Falei de uma tal mãe. A que tem um corpo fora de mim.
A rapariga de gabardine vermelha reconheceu o rosto mais velho e carinhoso como segunda mãe. Era a prova de que o mundo afinal não era assim tão mau.

janeiro 05, 2014

Bathing Pool

Posso fingir que não há relação entre a pintura deslumbrante e a música que rasga do rádio no quarto. Mas é inevitável.


Acordar com a morte de alguém. O teu quarto está escuro, porque ainda não subiram as persianas. Apenas há vestígios de uma luz cinzenta que avisa o tempo lá fora. Cá continua tudo concentrado e simples.
Depois a pessoa olha para o aparelho, não o rádio que está ligado com a antena enorme que se estende quase até ao tecto, e apercebe-se da morte de alguém.
Ele não me pertencia. Não me morreu como a minha avó. Mas morreu em alguém e de alguém. E agora o estado lá fora transborda cá dentro.


janeiro 04, 2014

Calclulei que não estivesses a postos. Há pessoas que nunca estão a postos.
Acaba assim a história.


De repente lembrei-me da pasta da rapariga de 1999. Do pedaço de passado que viera parar às minhas mãos. Depois no canto do café, com a chávena meio cheia, com a história de Amara a meio por ler nos minutos seguintes, e as folhas rascunhadas, desordenadas, de apontamentos de alguém que pertencera ao mesmo instituto universitário que eu.
Agora a rapariga teria os seus trinta e tal anos e já se esquecera das letras. Por outro lado podia viver delas.
O que interessava era a pasta com os elásticos já gastos, e as marcas da ferrugem no cartão. A tinta variando entre o azul e o preto. As folhas rosadas, outras pautadas e ainda fotocopiadas de livros antigos.
Esse dia ventoso, onde pesquisei a pasta com discrição no banco de jardim do pátio ventoso e no café com ligeira música a tocar, ficou em mim como os pássaros que rilrreavam sem darem pela minha presença no dia em que passeei o cão já de noite pela rua.
Um acaso feliz, com alguma história pelo meio.
Onde estaria a Rita por agora?


janeiro 03, 2014

Estugaste o passo.
Eu estava ao longe, seria disso?



Hoje desapaixonei-me completamente pelo mundo pela manhã.
O vale está inundado.

janeiro 02, 2014

O gesto político que são os teus olhos;
Todos os dias tomava pelas mãos o rectângulo de sabão de lavanda e esfregava as mãos até deixar os vestígios daquilo. Só lavava o corpo, a mente continuava nas árvores.

Eu, a rapariga, fazia a sandes. Compunha o pedaço de pão com uma dose pequena de manteiga e mortadela.
Foi quando cortei em dois que reparei na cor do pão, mais escurecida que o normal. Noutra altura ter-me-ia importado. Agora, ao olhar os vagos tons de castanho de pão cozido a mais agradeci por poder sentir na boca o sabor da satisfação. Não tive de pedir a ninguém.


janeiro 01, 2014

Fotografia de Vagn Hansen em Billed Bladet


A Erika foi apanhada no meio da Revolução Húngara de 1956. Tinha 15 anos. Morreu no mês posterior a esta fotografia ter sido tirada.
A Erika tinha 15 anos e tinha sonhos. Morreu a salvar corpos magoados na Cruz Vermelha.



Mais aqui.
Não parece mau as árvores ainda soprarem de vento e eu ter medo dos becos quando caminho lentamente para a cama. É um ano novo, e eu continuo a mesma. Mas com mais luta.