Querida Raquel, eu sempre pensei que com esta revolução me tornasse mais fraca, menos capaz, mas tenho-me vindo a aperceber que crescer ao Sol não é ter a vida facilitada, é sorrir no esforço, é aguentar, lutar e superar. E é isso que tenho tentado fazer desde que a guerra começou.
Bem ou mal sucedida eu vou tentando, por mim, por ti e pelos outros, pelos que me dão força e pelos que amo.
E não penses que não lutei para superar o A, para seguir sempre em frente na rua e chegar a casa nesse dia e dormir.
Mas no sábado não quis fechar os olhos. Isso é para quem não tem sonhos. E o meu sonho é ele pequenina. Eu sei que provavelmente já viveste mais coisas que eu, mas eu com o que já vivi aprendi que há várias formas de amar, e há várias coisas para se amar. O António é aquele quadro adocicado que apetece olhar e comprar na galeria. É aquela pessoa com quem queres passar a noite e dançar no meio da rua. O amor e a atracção são mesmo assim. É sádico, magoa mas é tão magico meu amor. E eu sempre preferia ter alguém do que ninguém. Estou presa a ele e ele de certa forma, vais estar sempre preso a mim.
Vivemos dentro da lei da atracção e descansamos na presença um do outro. Prefiro tê-lo assim, perto de mim, sem defesas e sem receios e com o rosto apaixonado de sempre, do que tentar viver de uma imagem dele. As memórias podem ser traiçoeiras.
Portanto tenta não viver de memórias e parte para a acção.
És muito nova e tens muita vida para encher-te de beijos e alegrias.
E amo-te demasiado para te ver sofrer.
Mariana
outubro 09, 2012
outubro 05, 2012
48.
São estúpidos. São maravilhosos. Encantadores. Sedutores. Sorriem na nossa direcção, e colocam o braço à volta do nosso ombro. Sentam ao nosso lado, respiram ao nosso lado, adormecem ao nosso lado. Fazem directa ao pé de nós, riem junto de nós e caminham rumo à praia junto a nós. São irresistíveis. Sussurram ao nosso ouvido. Falam baixo no escuro a partir da meia noite. Encostam-se a nós quando está frio, puxam-nos as mãos e entrelaçam os dedos deitados na praia. Escolhem o espaço do nosso ombro para encaixar o queixo e nos falar ao ouvido. Ouvem o vento connosco. Sorriem connosco e vêem o põr-do-sol connosco. Levam-nos a casa e despedem-se com beijos. São inacreditáveis. Roubam-nos beijos no meio da rua. Encostam-nos à parede e pousam a mão no nosso rosto. Olham-nos nos olhos e sem vergonha puxam-nos para o quarto.
Nós escondemos a cara, aninhamo-nos no chão e mordemos o lábios.
São desejáveis. Vestem roupa simples que lhes cai bem. Trabalham o corpo e olham para a multidão descontraidamente. Tomam banho e saem com a toalha à cintura. Vêem desenhos animados. Têm vários talentos.
Adormecem de manhã junto a nós. Adormecem à noite connosco. Chegam a casa de madrugada connosco e riem às gargalhadas na rua connosco. Andam de mãos dadas connosco. Fazem promessas. Eles são sedutores.
São simpáticos quando estão connosco. Dançam na cozinha connosco. Vêem televisão connosco. Brincam connosco. Atiram-se para a cama connosco e passam férias connosco.
São estúpidos. Deixam-nos para trás. Gostamos deles inexplicavelmente. São irritantes. Têm lábios saborosos. São idiotas. Fazem-nos gostar durante tanto, tanto, mas tanto e tantos tempos.
Eles, são homens.
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