fevereiro 20, 2015

Chá do México

Não te sei explicar as palavras de Sandra. Sei que lhe repeti que escreve as memórias póstumas da filha de escravos, que tiveram netos negros.
A sua convicção nos valores morais da sua terra cabia-lhe no sorriso. Talvez por falar tão banalmente das fodas, desse mais valor à vida em comunhão.
Sandra não era nenhuma hipócrita. Falava de estrangeirismos e de como atravessou os jacarés do Pantanal para perder o medo.
A sua vida dava um livro impressionista. Satie tocaria.

fevereiro 18, 2015

À memória de Ruy Belo

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de
*****Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do
*****Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na
*****assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum
*****ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua
*****lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.
(Eugénio de Andrade) *1978 

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