janeiro 16, 2015

Clandestinos do amor

O lugar parecia clandestino. Uma ucraniana de vestido bordeaux e botas de cano alto passeava-se pela cave escura, e ria às gargalhadas com o rapaz e a amiga. Eu não percebera o dialecto, mas algo naquela poeira de fumo e a distracção de todos pelos telefones me cativou.
"Enquanto olhares para mim eu sou eterna", gritou o rádio. Não havia inverno nessa noite. Apenas caras que não se conheciam num andar de baixo.
Somos clandestinos do amor
Odeio o estado do mundo. Há uma corrente de chuva que escorre pela plataforma da estação do cais, e tudo sofre.
Há um raio de luz que espreita do tecto e depois a humidade dos pensamentos.
Odeio o estado do mundo. E não posso fazer nada contra isso.

janeiro 14, 2015

waiting game

Paris é para mim uma vaga recordação. Já estive nela. Escrevi sobre ela. Reportei de um computador de Hotel sobre ela, a pessoas mais chegada. Mas nesse tempo longínquo não amava Paris.
Tenho para mim, que tudo o que enfrentei com esses quinze anos que tinha, não tem qualquer significado para mim. Nunca mais poderei ser a mesma pessoa. Não saberei sorrir da mesma forma para as fotografias.
Paris é para mim agora uma vontade. Ela é um desejo que guardo no bolso. Uma sedução. Uma selva de utopias.
Talvez volte, para outra aventura, já dez anos depois. As estrelas estarão à distância do toque.



janeiro 13, 2015

Ilan Eshkeri

Corri desenfreadamente para a multidão de chuva que estava à minha frente. Deixei para traz a confusão dos transportes e dirigi-me a casa. Não sei porque tal, mas senti vagar. Chorei porque o vento cortante e a ondulação da chuva, insistindo em magoar-me a cara, quebravam o espírito.
Não preciso da falta de amor, para definhar. É o tempo, esse elemento tão hipócrita que odeio. Não odeio o cheiro da humidade, mas sim o dos teus olhos. Minto, a cor de prado sem fim que eles emitem. 
Odeio o gesto fácil que é segurares-me na cintura para me sentir mais firme. A certeza, a que odeio, é de invejar o mundo, que te alberga mais que eu.
Só te tenho por umas horas, e odeio.
Quando regressares, estará escuro.



janeiro 10, 2015

A tua boca seria um império, se pudesse provar a conquista que é tocar-te. Não da forma mais banal que encontro neles, tão distantes entre si. Da forma que me faz arranhar os ouvidos à chegada quando suspeito da tua presença. Do modo maquiavélico que é o teu sorriso. Enrubesço só de te imaginar despido de ilusões, tão saber da realidade.
Tu és também poesia, Talvez a que tem forma de prosa. Porque assim ao escrever lembro-me de ti, e as palavras trazem-me sentimentos.
Acho que te sinto para lá das estrelas.

janeiro 09, 2015

janeiro 08, 2015

Thesaurus

Com a consequência do tempo estar agradável envolvi-me de novo na selva paradisíaca da Fundação de Calouste. Os jardins mantinham a pose exuberante de uma natureza que em tudo não é selvagem. Estes não eram jardins malauianos ou amazónicos, mas sim um recanto que sofria todos os dias manutenção, mas eu reconhecia-o como um milagre no meio da civilização.
A questão da paisagem que se tinha discutido voltava agora com força. Esta era uma localidade que falava mais alto que o homem, embora muda. Os animais e as plantas, e a presença humana que invariavelmente invadia o espaço, contribuíam para a criação de uma paisagem cultural. Aqui não havia discriminação de idade e forma. As árvores aceitavam o meu dorso para eu descansar. Fechar os olhos e dormir a sesta. Quem não sentiria essa sensação de poder e liberdade, se lhe fosse entregue esse privilégio?
Paul Theroux continua sempre a ter razão. A viagem e a caminhada sem pressa constituem um dos melhores elementos da vida humana. Dizendo isto é admitir que o homem será sempre um procurador, em busca de qualquer coisa, que nem precisa de ter nome.
Essa pode ser uma palavra, um estímulo ou uma sensação. Para quê nomear se podemos sentir?

dezembro 31, 2014

Lembrei-me da tarde calma, fim de tarde até. O quarto da casa da Ericeira inundado da luz do sol ao fundo onde eu me vestia depois do banho.
Não me lembro de ter pressa. Sei que escovei o cabelo longo, pousei as toalhas na cama e deixei-me sentada, e ignorante à velocidade da cidade que deixara. Eu só queria aquilo. O vazio. O silêncio. O barulho de um nada, muito apetecível para mim.
Apetece-me essa calma que às vezes esqueço. Apetece-me a viagem ao centro de mim.



dezembro 21, 2014

A Marta convidou-me para beber uma cerveja no Chiado. Não gosto de cevada. Sou pelo vinho do Porto. Cortei o cabelo e fiz uma permanente. Finalmente pareço-me com a jovem Marta de quem ela tanto falava nas peças de teatro. Eu era a que espreitava nos balneários, e deixava recados de amor com a empregada da limpeza.
Perguntava se sim ou não, e não tinha medo das respostas. Vivia ao saber delas.
A Marta escreveu um lindo texto para a Prima no Facebook. Eu chorei com a metáfora do cão. Também a G me conta todas as histórias da sua depressão e percebo que tudo é verdade. Todo o sofrimento é verdade. Todas as conquistas são mentira.
Negamos. O reverso é apetecível, e a ilusão deixa-nos apaixonados.



dezembro 11, 2014

Entretanto ele encontra-a mergulhada em música no apartamento. Continua encostado à porta da entrada troçando dela com um sorriso. Como não dá para perceber?
Ela não sabe que ele a deseja, ou talvez finge-se distraída. Continua alheada em Satie, e enquanto a Gnossienne se desfaz ele arranca-a das roupas invernais para depois fazerem amor. 





dezembro 10, 2014

Há o amor do tipo que ele a surpreende pela janela do carro em frente ao Banco onde trabalha, à hora do almoço. Ele olha-a e a mensagem de brincadeira que se repete nos seus lábios é um indício de que as coisas andarão bem.
Há um gesto de confiança enquanto ele distingue a janela de onde a vigia com amor durante a tarde. Ela estuda na rua diagonal. Ele ama-a durante a hora de expediente.
O amor dos beijos antes que esta entre no carro. O amor semelhante à paixão, mas que dura um bocadinho mais.


dezembro 07, 2014

dezembro 06, 2014

Cerejas

Quando almoçava lado a lado com a Graça no Espaço Edla, com os poemas a decorar o tampo da mesa de vidro não imaginava que a Isabel seria tão gentil. Tive ideias de visitar Cascais depois de regressar do frio de Sintra, e de hoje de manhã ouvir o automóvel do Riviera cantando Boas Festas pela minha vila.



dezembro 04, 2014

novembro 27, 2014

Inverno chegou


Anda por aí a brisa fresca  e gelada escocesa que me lembra Sean Connery e a madeira chamuscada que invade as paredes do coração. Não sei o que me falta, mas dou conta de um vazio.
Todos doemos um pouco de vez em quando.