Lembrei-me da tarde calma, fim de tarde até. O quarto da casa da Ericeira inundado da luz do sol ao fundo onde eu me vestia depois do banho.
Não me lembro de ter pressa. Sei que escovei o cabelo longo, pousei as toalhas na cama e deixei-me sentada, e ignorante à velocidade da cidade que deixara. Eu só queria aquilo. O vazio. O silêncio. O barulho de um nada, muito apetecível para mim.
Apetece-me essa calma que às vezes esqueço. Apetece-me a viagem ao centro de mim.
A Marta convidou-me para beber uma cerveja no Chiado. Não gosto de cevada. Sou pelo vinho do Porto. Cortei o cabelo e fiz uma permanente. Finalmente pareço-me com a jovem Marta de quem ela tanto falava nas peças de teatro. Eu era a que espreitava nos balneários, e deixava recados de amor com a empregada da limpeza.
Perguntava se sim ou não, e não tinha medo das respostas. Vivia ao saber delas.
A Marta escreveu um lindo texto para a Prima no Facebook. Eu chorei com a metáfora do cão. Também a G me conta todas as histórias da sua depressão e percebo que tudo é verdade. Todo o sofrimento é verdade. Todas as conquistas são mentira.
Negamos. O reverso é apetecível, e a ilusão deixa-nos apaixonados.