setembro 24, 2011

Ma jeneusse

Voltei à minha forma. Não vamos falar de mediatismos e polémicas. A vida são três passos pequeninos em pés de lã. São fechares de olhos e criações de amor. Os artistas são doidos sim. Podem dizer que sim. Não teria graça de outra forma. Não estaria escrito nos registos se tal fosse uma mentira. Uma ilusão mergulhada no desespero comum. Um apelo à criatividade. Os artistas têm razão de ser. São de pedra dura e nascem de um ventre injectado com pneumonia emocional. Os artistas são pobres. Morrem em passeios de calçada e provavelmente sorriem e choram mais que a maioria do mortais. São sós mas cheios. São feios mas magníficos. Morrem pela arte. Morrem dentro da arte porque a arte os possuiu em vida e os salvou da morte dos comuns mortais. Eu compreendo tudo. Vejo tudo. Ouço tudo e guardo tudo. Filtro tudo e vou defecando certos sentimentos de vez em quando. Quando a maré baixa até a espuma desaparecer. Quando o gás acabou no candeeiro e quando o ticket expirou. Quando a terra é engolida pelo Sol. E aqui entram os artistas. Os lunáticos que nos salvam da pele dos leões quando o mundo se aglutina e encolhe como uma balão a esvaziar. Eles entram triunfantemente, descaradamente no meio do Outono paciente. Comos os esquilos que escondem as amêndoas no meio do arvoredo. Deixam e partem. Colocam o pé à frente e dançam com as palavras. Fingem os malditos. Aliciam e enganam com as palavras de inverno que congelam mas consolam na tristeza. Comovem com lágrimas quentes e salgadas. E partem rapidamente com o vento que corre de um lado para o outro. Eles são artistas. "Estão aqui para viver em voz alta". Por isso te digo que voltei à minha forma. Voltei para fingir de novo. Je suis retourné :) Ray Charles and Diana Krall-You don't know me

setembro 11, 2011

Olha como eles brilham para ti

E então virei a esquina ou pelo menos o que me pareceu ser ela. Desprendi-me da bagagem e apertei a lã do cachecol. Era um frio cortante. Era um frio que gelava o corpo e lacrimava os olhos de emoção. As luzes petrificavam. As luzes pairavam no ar e embebedavam o silêncio. Chamei-as. Chamei-as de luzes curativas e entrei dentro do café. Sentei-me comigo deixando espaço para o casaco e a indumentária restante. Reparei nas bonecas de neve que brincavam na porta a cada entrada e saida do estabelecimento. Esperei até que os sinos começassem a tocar na minha cabeça. Fiz muita força. Muita força interior até que fiz o pedido e despedi-me do mundo. Abri o caderno de capa antiga e peguei na caneta. O outono chegou com as palavras até àquela terra refastelada de sol e brisas. Virei numa esquina que me pareceu chorar as expressões faciais. Todos choravam a morte paciente e inquieta do mundo. A morte brutal dos sentimentos de todas as pessoas que giravam à minha volta. Uma gigante onda veio em direcção a mim e fui empurrada de novo. Jurei chocar contra a cadeira de madeira que me apoiava. Afastei o dorso das páginas tristes e abri os olhos. Levei a chávena de café quente à boca e suspirei de alívio. Foi mais uma história.